miércoles 6 de octubre de 2010

O menino que arranhava a Terra

Arranhava a Terra como se cavasse um buraco, mas no fundo arranhava a Terra para feri-la. O horror e o ódio lhe escorriam pelos lábios como baba, gotejando sobre o cascalho e a terra negra sob seus joelhos, mas ele seguia arranhando.

Qualquer um que olhasse diria que ele estava brincando, abrindo espaço para esconder um tesouro, como as crianças normais fazem, mas ele não era normal: ele queria ferir a Terra. Queria esburacá-la toda e encher de dor toda sua epiderme terrena.

O menino arranhava, arrancando tufos de terra negra, cascalho, grama e esterco, sujando as mãos de negro, mas não importava, ele não era um menino normal, ele não queria se sentir bem. Ele se sentia estranho ali, na Terra.

Cavava e escavava, mas no fundo arranhava e feria. Queria ir embora, porque ali não era seu lugar, ali se sentia demasiado horrendo para permanecer por mais tempo, enquanto as outras crianças brincavam de esconder e chutavam a bola pra cima e pra baixo. Aquilo era demasiado terreno para ele. Precisava fugir, desaparecer, encontrar seu próprio mundo.

Sentia dor e tristeza, queria conseguir fechar os olhos e negar o mundo, mas era impossível, as imagens, as vozes, as verdades... Tudo aquilo lhe rodeava, acirrando o cerco cada vez mais. Injustiça, guerra, fome, vergonha, medo, ódio, tristeza.

Queria que tudo fosse pro inferno, e por isso arranhava, por que era o que a Terra merecia em troca, como se arrancasse pedaços de pele, tirando sangue, puxando cabelos, obstruindo vasos sanguíneos, ia destroçando um pouquinho daquela Terra que tanto odiava... Como podia alguém querer viver na Terra? Como alguém apoiaria, fecharia os olhos e sobreviveria a toda aquela desgraça?

Uns com tanto, outros com nada. Puxava com raiva a raiz da árvore, tentando com todas suas forças arrancar da Terra, como se extraísse a jugular para assassiná-la de uma vez por todas. Queria que a Terra parasse de respirar, que toda a gente entrasse em júbilo, que a dor e as tristezas desaparecessem, rapidamente, num piscar de olhos, e então ele pararia de arranhar e arrancar e ferir a terra e suspiraria aliviado. Por debaixo das unhas o sangue descendo e a ardência na carne aumentando, mas então todos estariam em paz, num mundo melhor.

Por que por ser criança acreditava que a maldade estava na Terra em si, em seus caroços e rebentos naturais, e não em cada um de nós humanos que nela vivem. Por que as crianças vêm além, e fantasiam aquilo que lhes dói: a humanidade.

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N.A: acredito que esse menino vive um pouquinho em cada um de nós, sem saber exatamente como curar o que talvez nem tenha remédio.

lunes 5 de julio de 2010

Notas - A Morte

Hay tanta luz tan sombría en el espacio
y tantas dimensiones de súbito amarillas,
porque no cae el viento
ni respiran las hojas.

(El reloj caído en el mar – Pablo Neruda)

I

Sinto no peito pedaços mortos do meu coração, o som quebrado do meu pranto e minha voz muda de quem já se foi. Sinto os dedos das minhas mãos, tão finos e frios que parecem quase podres, os tenho mortos em vida.

Há palavras doloridas que escorregam dos meus lábios, e verdades sombrias em meus pensamentos que prefiro nunca pronunciar. Meu coração já não é vermelho, nem pulsa; meu músculo involuntário agora é raiz de todas as trevas, e ferve frio, queimando por dentro.

Sou estilhaços de vidro espalhados pelo chão, confundidos com a grama seca, misturada com a terra negra e as gotas de orvalho. A grama amarelada lembra o fim do outono e meus pés, brancos como lírios, lhe pisoteiam num sem fim de passos descontínuos; minha pele vai se rasgando contra os pedaços pontiagudos que eu mesma despejei.

Foi-se, para o nunca e para o nada, agarrando-se as recordações e razões. Foi-se, deixando-me sozinha com minhas próprias lágrimas sujas e mãos trêmulas. Capturou tudo o que me sobrava de luz e desapareceu, como a água faz entre os dedos, escorrendo gota a gota, como meu pobre e poeirento coração.

O dia dá passos de sangue quente em direção à noite e meus olhos querem seguir chorando mesmo que fechados, sentindo o cheiro maduro da morte e da terra; as orquídeas deixadas no chão, ao lado da lápide, enquanto sigo escutando vozes desconexas chamarem meu nome entre soluços de dor.

Foi-se.

II

Estive intermináveis horas observando o decorrer da vida. A maneira que desliza vida e morte numa mesma estrada sem fim, vezes se esbarrando, vezes tropeçando, vezes cumprimentando-se sem dizer adeus, vezes indo embora sem notar-se uma à outra.

Quando se desaparece assim, como se virasse pó ou sumisse na imensidão do universo, quando me dei conta disso, vagamente, minhas lágrimas eram de sal e sangue e tinham o poder da destruição.

E mesmo que cada uma delas caísse apenas no meu próprio rosto, manchando apenas a minha pele, eu sentia como se a maldição destrutiva que cada uma delas emanava fosse capaz de afetar todas as pessoas que me rodeavam.

Foi-se. Voando para o nada, tocando o infinito com seu corpo magro e desolado, sua voz me vinha aos ouvidos, rouca e podre como a morte, atormentando meus pensamentos doentios. Martelando suas canções de despedida em meus tímpanos.

Meu pranto descontínuo, meus medos incontroláveis, minhas fantasias em vão. Tudo perdia e entremesclava com as meras visões baças que meus olhos podiam me dar, arrancando-me a alma como a morte costuma fazer, rompendo veias e ligamentos de uma relação defunta.

Foi-se, mas deveria haver-me levado junto.

III

As manhãs nasciam com esforço, lançando jorros de luz ao céu até ganhar sua luta contra as trevas. E cansei de vislumbrar batalha trás batalha, como se houvesse salvação para a escuridão.

Como se a mesma luz não me parecesse sombria e solitária, trazendo recordações já em estado de decomposição, ardidas e latentes, rastejantes na minha mente.

Por que encaixotar corpos se, ao fim, todos virarão pó? O que deixamos nesse mundo se nossa alma se vai, se nossos ossos de desfazem e somos aprisionados em malditas caixas de madeira cara com forros acolchoados e macios que guardarão nossas cinzas mal-cheirosas e antiquadas, nossas unhas esfareladas e cabelos descoloridos.

Pedaços amaldiçoados de vidas que jamais voltarão, de vidas que pouco marcaram o mundo ou representaram alguma salvação. Partes incógnitas da criação e destruição dessas almas pecadoras, rebanhadas em petróleo negro e areia cinzenta, cheirando a mofo e flores mortas, pulmões cheios de água suja.

A morte, desgarradora de peitos com seus dedos de maldade e unhas que comem carne humana. Rachaduras escuras e gretas mal cheirosas. Cheirando à perda, desilusão e remorso.

Foi-se. E que me levasse também, em uma de suas nuvens cinzentas de enxofre e chumbo ardente que queima almas solitárias. E que morresse por fim sem deixar mais vestígios que um suspiro roto, sem lágrimas de despedida ou choro de tristeza.

Que morresse, para não ter que ver outra vida ser levada na minha frente.

jueves 3 de junio de 2010

La Chilenita

Eles ficaram se olhando durante um longo tempo, antes que pudesse pensar em alguma outra citação de um poema ou livro bom. Logo ele se iria e ela continuaria ali, com seus estudos sobre literatura e teatro, com seus pés metidos nos chinelos havaianas já gastos, nos vestidos hipilões misturados com colares de pérolas falsas compradas no camelô da Santo Amaro.

Eles ficaram se olhando enquanto ele tomava a cerveja, que já deveria de estar quente depois de tanto recitar Borges, Neruda e Bocage – porque eles preferiam os versos firmes e eróticos parar rir –, e ela acendia o cigarro.

Deu um suspiro e mordeu dentro da bochecha querendo perguntar logo de uma vez:

“Por que Paris?” Ela disse enfim, assim como havia perguntado tantas outras vezes aquela mesma frase.

“Por que sim”

E ela bufou, soltando a fumaça pelo nariz e a boca ao mesmo tempo. Desde sempre ele queria morar em Paris e sem nunca uma boa explicação.

“Só pode ter sido que leu e gostou demais de Vargas Llosa!” ela reclamou.

“Li e gostei, mas a vontade foi bem anterior...” murmurou, acendendo um cigarro ele mesmo.

Ela riu. Ele sempre estava indo e vindo, mandando cartas como se fossem de um tempo longínquo, sem internet ou skype ou telefone. E ele sempre lhe mandava as cartas longas endereçadas com zelo a sua casa, em envelopes normais brancos com selos de Paris.

“Então só pode ser pelas mulheres, a vida boêmia, as artistas por todos os lados pululando nas pensões mequetrefe onde você se aloja.”

“Mequetrefe também não, Flor!” ele riu “Precisa ir comigo! Conhecer Paris e tudo o que há de bom naquela cidade!”

“Ai, Nando, sai pra lá com essa sua Cidade Luz porque ela já me roubou anos de melhor amigo...”

“E ficou com ciúmes de uma cidade?”

Ela deu de ombros, fumando o último ou penúltimo trago, ajeitando o vestido longo e hippie nas pernas, verde claro e azul, contrastando com os cabelos negros e longos.

E depois ele zombou dela, reclamando que Flor tinha pegado o sotaque engraçado daquele namorado chileno dela. O que lhe fez reclamar e espernear que ele estava lendo Vargas Llosa demais!

“Ta sim, com sotaque de chilenita”

“Nando, você não é o Ricardo e não estamos vivendo ‘Las travesuras de la niña mala’!” exclamou, puxando os cabelos pra frente e fazendo uma trança “Você foi em busca de aventuras, não é? Não foi atrás de ser cineasta e ganhar a vida assim?”

“Sim, chilenita” zombou de novo, fazendo a outra emburrar.

“Pois se eu fosse sua chilenita, era você quem devia correr atrás de mim e não ir-te pra Paris. E ficar aí morrendo de amores pela minha carne.”

“E quem disse que não morro, Flor?” e ele riu da expressão estressada dela “Morro desde que conheci essas canelas bem torneadinhas, mas não me deu nenhuma chance, aliás arranjou um namorado atrás do outro e entre eles muitos amigos meus.”

“E agora vai querer que eu acredite nesse despautério, Nandinho!” reclamou roubando a cerveja dele, porque a dela tinha acabado. E ele levantou pra buscar outra garrafa na geladeira.

“E o chileno?”

“Foi embora pra Santiago, dizendo tchau e bença. Pegou as imagens que queria de São Paulo, da Avenida Paulista para o curta, juntou os trapinhos dele e largou fora de casa. Ficou só o silêncio...”

“O silêncio e o fogueirão aceso entre as pernas, assume.” Ela revirou os olhos “Diz a verdade Flor, morreu de raiva que perdeu o chileninho e ficou com a cama fria.”

“Oras, obvio, ninguém escreve com a cama fria, como acha que andam minhas produções literárias? Um poema doído atrás do outro. A falta da pele dele, do hálito no meu cangote, das mãos quentes durante a noite, e já viu. Certamente os continhos andam sendo os mais deprimentes da minha vida”

“Então vem comigo pra Paris que eu esquento a sua cama.”

“Isso! Enche ela com seus amigos, que minha escrita agradece!”

Eles riram e ele a viu levantar e andar até o sofá cama aberto ali na sala/cozinha do pequeno apartamento que ele ainda tinha em Sampa pra quando voltava à terrinha. E ela esparramou o corpo ali, meio mole de cerveja, meio cansada, o cigarro pendurado nos dedinhos miúdos amorenados do sol e da praia.

“Ah, Florzinha, se tu não fosse tão cabeça dura eu te comia” ele disse rindo, andando até ela, seus joelhos se esbarrando “Que nem a chilenita do Pichiruchi, recitando o mais forte de Neruda no seu ouvido, enquanto eu entrava devagarzinho”.

“Vai te iludindo, vai!” ela disse rindo “Que você enlouqueceu pelo Vargas Llosa e ta achando que eu vou ser tan estrechita cuanto su chilenita.”

Ele riu e decidiu parar, a brincadeira estava indo longe demais, com seus joelhos se tocando e o corpo dela espalhado pelo colchão, dando aquela sensação curiosa de sexo ainda por fazer. Sentiu vontade de derramar os demônios naquele corpinho magro que conhecia desde o colégio, mas nunca havia tido possibilidade de tocar...

“E se brincarmos de Travesuras de la niña mala?”

Ela riu, levantando os olhos pra ele, as cinzas do cigarro caindo no chão.

“Brincar?”

“Fingimos que eu sou el niño bueno e você la niña mala. Eu faço o que a chilenita ordinária gostava tanto que o pichiruchi mequetrefe do Ricardo lhe fizesse e logo veremos se você não me deixa esquentar sua cama...”

Ela o encarou. Os olhos arregalando e então riu.

“Vou precisar de mais cerveja pra te deixar afundar a cabeça entre as minhas pernas, Nando!” Exclamou, a risada aumentando por culpa das cervejas já tomadas.

Ele também riu, meio que desistindo da empreitada. Ela ainda o via apenas como melhor amigo e parecia que não ia mudar tão cedo. Encheu os copos e devolveu o dela em mãos, enquanto ela sentava no sofá cama mais uma vez.

Ela ainda ria da brincadeira e ele se sentia extremamente incômodo, sem entender direito tudo aquilo, havia se colocado no meio do fogo queimado, saíra sem bala, mas com a sensação de ter perdido o coração.

“Ei, Flor, vai comigo pra Paris. Há várias companhias de teatro que aceitam estrangeiros, a gente consegue um visto de estudante pra terminar Literatura.”

“Nando, cada um vive seu sonho. Quando eu achar que devo ir atrás de você eu vou, afinal como uma boa niña mala eu só terei você, sempre você, meu melhor amigo, que me socorre nas horas de desespero.” Ela sorriu, fazendo ele sentar do lado dela.

Ele sentiu o coração batucar firme no peito e o cheiro dela invadiu suas narinas.

“Vai, me beija logo Fernandinho, que me dá não sei o que ver você com essa carinha de cachorrinho sem dono*”

E então ele beijou. Porque por mais eu ela não fosse a chilenita do livro que ele tanto gostava, ele amava Flor há muito tempo e mais do que podia suportar.


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O título significa A Chileninha, em espanhol. e o livro mil vezes citado é (em português) As Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, meu mestre amado.

miércoles 2 de junio de 2010

Sobre Longas Viagens

Chorei como uma criança, sentada na minha nada confortável poltrona do avião. A mulher do lado me olhava, séria e levemente assustada - ou apenada, mas tanto faz - e eu assoei o nariz sem me importar com os olhos curiosos dela em cima de mim.

Me ajeitei no assento e verti as lágrimas no Kleenex branco que tinha em mãos, já empapado de tanta água salgada que lhe caía. Então o coração doeu muito e fechei os olhos soluçando, sentindo o sosego começar a chegar, devagarinho, como uma erva-daninha que cresce aos poucos. Nesse caso, a era não tinha nada de daninha.

A aeromoça perguntou se eu estava bem, se eu queria algo, se mandava prepararem um "té". Não não, obrigada, a dor já passou. E, enquanto a minha vizinha de poltrona imaginava que eu estava deixando em São Paulo meu namorado, a família, uma amiga do coração, eu repassava na cabeça as últimas frases do livro, que haviam me comovido até a alma.

No fundo não sei porque chorava: se por ter terminado um bom livro (desses que você não quer que termine nunca), por ter sido um final extremamente válido e ao mesmo tempo triste, ou porque realmente estava deixando a minha família mais uma vez, dessa vez sem saber ao certo quando eu voltaria a vê-los. Talvez dentro de um ano.

E assim, dessa maneira velada, o bolo imenso no meu peito se desfez, no choro explicado pelo fim do livro, nesse choro realmente doloroso, quase como uma libertação ou um fim de ciclo. Dessa maneira, não sei como, o coração se assentou no peito, a batucada descompassada se acalmou e respirei tranqüilamente.

A mulher do lado se ajeitou na poltrona mais calma, já não incomodada pelas minhas reações. A aeromoça sorriu e me deu um copinho d'água, e por fim me deixaram em paz, na santa solidão divina, sem olhos curiosos em cima de mim.

Fosse livro ou fosse tristeza, chorei a gota gorda até o coração amansar dentro do peito. E já estava pronta para mais uma longa viagem.

domingo 25 de abril de 2010

Made in Brazil

foi a primeira vez que eu sentei e comecei a criar algo original. meu peito palpitou com as idéias que iam surgindo e eu quase me orgulhei. quase. depois lembrei que só devo me orgulhar quando tiver pelo menos 5 capítulos do livro concluídos.

e logo me senti outra vez como Pequeno Príncipe nu planeta vazio.

mas já tem títuñlo provisório: Made in Brazil

sábado 17 de abril de 2010

Eu, por mim mesma

“Que ainda era muito e muito pouco.”

- Daniel na cova dos leões- Legião Urbana -


Eu nunca fui racional. Modesta. Permanente. Eu conhecia a metáfora Metamorfose-Ambulante de cor e salteado, de trás para frente e de frente para trás. Eu queria ser tudo aquilo que eu achava que não era.

Eu tentei me classificar.

Mas, buscando com todo afinco possível no mundo, eu não encontrei nenhum rótulo nas Páginas Amarelas que fosse “a minha cara” – e eu a li duas vezes.

Tentei ser emo, punk, rock, clássica, bitch, funkeira. Não consegui. Na verdade eu sou eclética, eu posso ouvir e dançar um pouco de tudo. Acho que sou uma mistureba.

Beijei meninos e meninas, eu quis ser lésbica e adotar uma filha, então iríamos para a praia e nossas conversas sempre seriam de mulher-para-mulher. Mas não consegui.

A gente não é o que gostaria de ser, a gente é o que é.

Eu me embebedei em tantas festas e carnavais que eu não saberia dizer quantas foram. Eu fui fumante – e as vezes ainda sou –, acho sexy, o que posso fazer?

Eu quis ter muitas vidas, inventar cada uma delas, nos seus mínimos detalhes, cada uma das cenas, dos personagens, dos nomes e as frases. Eu criava – e sigo criando – diálogos no banho, às vezes em inglês, outras em espanhol ou português. Ultimamente até arrisco algumas palavras do japonês.

Eu sempre quis ser famosa, eu queria ser atriz, queria dançar e cantar num palco, agradecer aos fãs, ser escritora e dar autógrafos, ganhar o Oscar para fazer crítica social ao vivo nas televisões de quase todos os países.

Queria ser revolucionária, mas há muitas vezes em que penso que já sou, que meus atos e meus ideais vão contra de tanta coisa que me tacham de utópica.

Mas eu gosto dessa palavra “utópica”, se voltamos atrás e vemos sua concepção inicial por Thomas More, encontramos que do grego podia significar “em nenhum lugar” ou “em bom lugar”. O que significa que, ou pertenço a lugar nenhum, não posso encontrar um rótulo específico, ou pertenço a um bom lugar.

Acho que o único rótulo que eu gosto é esse: A Utópica. Por mais duro que seja, soa melhor que qualquer outro rótulo banal que encontramos pelas geléias da vida...

Mas, voltando, eu queria viver todas as vidas possíveis, eu deveria ter sido atriz, mas pra variar tomei o caminho errado e me meti em Direito, sim eu – a utópica, louca e descabelada – vivendo entre os burocratas de direita. Pois, como podem ver, não deu.

Não pude, eu sinto muito, papai e mamãe, mas a sua filhota aqui nasceu pra voar como passarinho do mato e não se enjaular num montão de leis estúpidas e, nem sempre, factíveis.

Eu nasci pra criar. Ah, isso eu tenho certeza, eu sempre fui boa inventando, tão boa que brincava com os esmaltes da minha mãe, e dizia que era uma “familiazinha”. Eu passava horas a fio brincando sozinha, eu gostava de brincar sozinha porque assim as Barbies não tinham que falar em voz alta e eu podia inventar o que quisesse na minha cabeça.

Sim, essa era e sou eu. Eu invento minha vida quase 24h do dia, um pouco outsider e introspectiva – você pode estar pensando – mas quando me vir falando em japonês como se estivesse em Tokio, bancando a ídolo, vocês vão rir e entender que assim eu sou mais feliz.

Porque eu sempre gostei de coisas impossíveis, eu sempre gostei daquilo que eu nunca poderia ter e, por mais impossível que fosse, eu o almejaria até que cansasse desse e inventasse outra coisa ainda mais impossível.

Porque eu sou brasileira e não desisto nunca. Porque, por muito que eu deseje as coisas e que seja muito, eu sempre acharei que ainda é muito pouco.

jueves 15 de abril de 2010

Pra curar heroísmo

Então houve um baque, um desses surdos, sem ninguém esperar. Depois veio a dor, aquela dor que te amoleces todo o corpo, mas que com o tempo te acostumas a ela e a vida volta a ser a mesma. Logo te das conta de que o coração tem sofrido últimamente, mas te tens negado a assumir, a cuidar dele como se é devido. Que as dores de cabeça não são passageiras, senão crônicas, e ris de tudo isso.

Pura barbaridade! Nada disso é verdade, tu nasceste pra ser um indivíduo feliz e completo, mas o maldito buraco no peito não tem feito mais que arder e molestar, como se te metessem o dedo na ferida dia após dia. Vão arrombando o dito cujo, seguindo seu próprio rítimo; e tu no sossego: fingindo não sentir, agüentando a maldição como uma boa mulher tem que fazer.

Engolindo a dor e os incômodos, fazendo cara de boa moça, mentindo pra ti mesma. E, de repente, tu começaste a escorregar, as costas contra a parede, o cigarro pendurado nos dedos da mão esquerda, enquanto a mão direita tocava o chão te ajudando a sentar.

Bonita maldição aquela: de querer ser mais forte do que tu pode ser. Mais madura e consciençuda do que previu. Mais feliz e verdadeira do que pode agüentar. Mais amável e compreensível do que é possível.

Vamos, guriazinha, abre os olhos pro mundo e toca com a ponta da língua a amarga verdade, a de que tu não é nenhuma heroína ou suicída pra seguir assim: rasgando o coração pra depois costurar. Usa teu par de olhos que podem chorar tranqüilamente, e deixa lágrima por lágrima escorrer e manchar e te cansar, até a dor de cabeça te fazer cair no sono.

Tu precisa entender, menina, que gente da tua idade ri e se diverte, mas chora e diz que sofre quando precisa se sentir humano.

Daí a dor te derrubou e tu ficou ali parada no chão da cozinha, até que ele te viu e te ajudou a ir jogar água na cara e tomar água com açúdar. Te fez passar pelo papel de garotinha frágil que precisava. Agora basta: não reclame mais, apanha essas forças que ele te jogou encima e volta a atuar como a valente e sempre feliz criatura que tu planejou ser.

Mas nunca te esqueças de ser humana vez ou outra, que faz bem pra gente. E ajuda a diminuir a dor.