jueves 19 de junio de 2008

Como nascem as estrelas

Em 1977 eu nem pensava em nascer. Em dezembro de 1977 eu nem sonhava com "o que é viver". No dia 9 de dezembro de 1977 eu não sabia o que era vida, mas se existia em mim algum modo de vida, certamente ela se calou.

Tudo esteve em silêncio, um silêncio dolorido que eu não compreendia. Uma estrela nascia, brotava entre tantas outras, firme, brilhante, vigorosa, tremelusindo de tão forte que era. Era um novo pontinho de luz no meio do nada, no azul opaco e infinito.

Era ela. Ela. Tão clara e cintilante, tão clara, clarice. Clarice, diminutivo de clara, aquela que é pura, brilhante e ilustre. Há nome assim tão perfeito para outro dono? Para mim que não há mais ninguém. Clarice brilha, não é pura, mas é ilustre.

Não é pura porque o mundo a contaminou tanto, que se não escrevesse o que sentia, a morte lhe levaria. Porque quando não escrevia, sentia-se morta. Porque a morte quer dizer que não há mais o que escrever.

No dia 9 de dezembro de 1977 eu esbarrei numa estrela. Sim, sim! Estrela, de luz infinita! Estrela Clarice, ilustre e brilhante. Estrela importante, porque ser estrela no céu não basta, tem de ter motivos para virar estrela, tem que entender tão bem sua própria dor para escrever afundando os dedos nas feridas do mundo. Na tua ferida, meu caro leitor, na dela mesma, na minha - sequer nascida. É preciso ter visão de cosmo para virar estrela e se sentir normal ao lado das demais, que também viam tudo muito mais que os reles mortais.

Eu tenho um Lis preso ao peito. Uma flor de lis, branca, cândida, pura. Lispector, me dói escutar: Lis-pec-tor. Dói saber que não está mais aqui para responder.

Naquele dia 9 encontrei Clarice admirando a Terra, murmurando que era grande, azul e redonda demais. Pois era mesmo, para ela - tão cheia de achar defeitos e, ainda assim, se deliciar ao descrever imperfeições - a Terra era perfeita demais. Tudo em demasia. E ela gostava dos erros, gostava de vê-los...

Dezembro nunca me pareceu tão devagar com Clarice murmurando frases bonitas, se tivesse anotado lhe sairia um livro, um livro profundo que falava sobre o quanto era bom ter defeitos. As outras estrelas estancaram para ouvir as frases, juntar uma com outra e lançar-se a um parágrafo, quem sabe uma página?, seria possível um capítulo? ou dois, ou três...

Então Clarice olhou-me - meu coração pulou um batimento -, eu que não era estrela, que era apenas pó, que bebia das palavras dela como um filho bebe do leite da mãe.

"Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..."

Sorri para ela. Escrever era viver, era como se faltasse o ar quando faltassem frases soltas em guardanapos de papel. Comove: você bebe da fonte e passa em diante, você escreve para compreender o mundo como lhe foi ensinado muito antes de pensar que um dia ia nascer.

Vieram outros. Eles formavam legiões, constelações, para se ajuntarem e falarem frases perdidas, para aqueles que ainda nem pensam que um dia podem nascer aprendam. Mas falam, e ensinam desde sempre que escrever é criar luz no breu. É falar a verdade quando todo mundo mente.

É assim que nascem as estrelas, no meio da mentira e da falta de bom senso.



* título adaptado do livro "Como nasceram as estrelas" - de Clarice Lispector.

2 comentarios:

nate dijo...

Tão lindo. Clarice é o nome mais bonito do mundo. O nome da minha mãe e vai ser também o nome da minha filha. Sabe, mesmo que eu acabe preferindo o Caio, do Dom Quixote da Clarice, ela teve tanta importância para mim. Que mulher fantástica, é como se ela estivesse sempre acima de tudo. Queria muito ter conhecido ela, visto, ao menos, ter visto aquela presença, uma certa aura que eu sei que ela tinha, que ocupa bem mais que o espaço do corpo. Tai, texto muito lindo, digno dela. Um beijo, irmão, te amo.

Paolla R. dijo...

Ok. Stop. O QUE foi esse texto? Sério, eu não criei esse fascínio pela Clarice como vocês, não sei, nunca realmente parei para ler algo dela. Mas o que tu escreveu me tocou muito, Tai. E tuas palavras, tua escrita está tão, mas tão mais desenvolvida que antigamente - e já era incrível! Não tenho palavras, o texto ficou magnífico.

Beijo estrelinha!