- Você me entende?
A moça se virou para olhar a amiga, que a encarava com um misto de desespero e incompreensão. Não, não entendia. Aquele silêncio em resposta, silêncio que de nada se parecia com um “quem cala consente”, aquilo era o contrário, era o aviso prévio do não-entendimento.
- Me desculpe... – murmurou sem graça.
Mas como assim? Como não compreendia? Era tão simples, tão obvio! Mas porque ninguém lhe compreendia?
- Viu! – exclamou – Ninguém entende! Por que diabos querem tanto saber o que eu penso se sequer minhas dores vocês são capazes de compreender? POR QUÊ?
Doía, e doía ainda mais fundo saber que nem ela, sua mais próxima amiga, lhe entendia. Não é difícil assimilar, é fácil. Não entendemos o que não se passa conosco. E a amiga não a compreendia porque nunca havia passado por tal sensação.
Aquela sensação amarga de deslocamento, de falta de encaixe, molde. Aquele nojo de tudo a sua volta, de todos os rituais - quase satânicos - de ingresso em grupos. Todos os tipos de grupos! Desde os intelectuais aos fashionistas. Todos morressem, bando de merda!
Aquelas conveniências e combinações de cores e roupas, e todas as meninas andando iguais, parecendo manequins de amostra de cores. A falta de realidade em tudo aquilo! A falta de variação! Todos aqueles cabelos escovados e chapados, lisos e longos, idênticos! Apenas a mudança de tom, de cor.
Tanto incômodo ao notar a falta de conteúdo, de frases próprias – até de frases feitas sentia falta! -, de massa cinzenta, ou qualquer tipo de estímulo interessante! Eram todos tão cheio de futilidades, ela poderia ter as suas futilidades pessoais, mas os estardalhaços, as explosões de sentimento em público, os desesperos antipáticos, a falta de humildade.
Tudo, tudo, tudo, tudo sufocava, machucava, mutilava seu bom senso, sua análise. Tudo lhe fazia mais crítica, mais impaciente com os outros, mais sozinha, mais introspectiva, mais injustiçada. E isso doía.
- Tudo bem... Você pelo menos me escutou. Vai, pode ir com os outros, vai contar para eles que sua amiga acredita que a burguesia é tão alienada, que o Brasil vai ficar ainda mais quebrado quando seu bando de riquinhos estiver com seus 40 anos!
É complicado o caminho da compreensão, não se pode esperar de qualquer um o mesmo sentimento de rancor. É um estímulo pouco usado, é difícil achar pessoas iguais, mas ela pouco se importava. Queria que todos os demais se enfiassem numa festa e inalassem aquela fumaça estroboscópica até ficarem tão sufocados quanto ela.
Falsidade e mentiras. E todos as aceitam tanto e tão bem, que os que desacreditados são excluídos, mal-olhados, maltratados, incompreendidos.
martes 24 de junio de 2008
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3 comentarios:
tão filosófico :o
parabéns, está muito bom mesmo. Achei o diálogo super bem feito *-*
(miss_krum ou francis aqui ^^)
tu anda tão profunda, tai :)
"Tudo lhe fazia mais crítica, mais impaciente com os outros, mais sozinha, mais introspectiva, mais injustiçada. E isso doía." - definição da minha vida.
ninguém entende ninguém. nunca.
a gente só se sente incomodade e tal quando se deixa sentir assim, no momento que tu te sente livre, honesto e sincero contigo mesmo, os outros se extinguem. eu juro. acho que o melhor conselho do mundo é não se trair, nunca, em hipótese alguma.
:*
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