domingo, 7 de septiembre de 2008

Besos que Matan

1. Tus dolores yo ya no los creo.

Os sapatos socando o assoalho de madeira, cronometrados com a música, com o violino, com a voz melodiosa, com o ritmo lânguido e, ao mesmo tempo, desesperado.

O suor nascendo de cada poro, brilhando na pele alva, escorrendo pela nuca, enquanto os pés traçavam passos inflexíveis, mudando a freqüência, esquivando-se.

As expressões dramáticas que só ela sabia encarnar tão bem, a solidão que banhava seu olhar, o sofrimento que franzia o seu cenho e a rodopiava sobre os saltos negros, a dor que a fazia abraçar o próprio corpo e trançar as pernas.

Toda aquela dor que ela encenava com tamanha perfeição sequer existia.

Era apenas a dor do tango.

2. Tus miedos ya no me dan pena.

As rendas negras do espartilho se aderiam à pele suada e acentuavam as curvas dos seios, delineavam a cintura, ameaçavam a razão de qualquer ser humano e ludibriavam a visão.

A saia já estava erguida até as coxas, numa vã tentativa de afastar o calor que fervia em seu corpo e queimava como o inferno. Teve que abrir os vidros das janelas e esperar que aquela tarde ensolarada soprasse algum vento.

Eles dançavam juntos separados. Aquela estranha sensação de estar sozinho mesmo que acompanhado de alguém. O violino deslizava, as cordas se preparando para o ponto culminante, os passos melancólicos, as pernas dela traçando com rapidez alguns golpes certeiros entre as dele.

Um rodopio e os dedos se soltando, como mandava a coreografia, e o medo estampado nos olhos negros dela, turvos, as mãos agarrando os cabelos, olhando ao redor, olhando sem vê-lo.

O pavor inundando os passos dela, os rodopios desesperados, a necessidade dos braços dele, o choro começando a brotar dos olhos, a fobia inexata daqueles que a fingem... Então o reencontro. O corpo sendo apalpado pelas mãos dele, o roças de lábios, a busca do olhar...

Tango é interpretar um medo que você não tem.

3. Tu olor ya no me encanta.

Os fios negros jorrando ao girar, golpeando o rosto mal barbeado. Aquele cheiro de shampoo de jasmim se misturando ao suor, ao perfume amadeirado que ele usava, ao vento quente da janela, ao pó da sala, afundando-os num aroma tão deles que mais ninguém poderia distinguir ou apreciar.

O agridoce do pescoço dela ardendo na língua dele, enquanto os passos paravam aos poucos e seus lábios se encontravam; as línguas dançando e os dedos se afundando na calcinha.

Uma espécie de ódio em conjunto com o suor, desespero e tango; e ele apenas de calça e sapato, as tatuagens no peito e os cabelos úmidos, grudando na pele, no rosto, no corpo dela.

As costas dela bateram na parede, o corpo dele, suado da dança, roçou no espartilho, sua mão afastou a calcinha, a saia erguida de maneira provocante...

As leis do tango...

Sensual.
Ele encaixou as pernas entre as dela, e a fez senti-lo, rígido e quente, muito próximo de onde queria chegar.

Sexual. Deixou-se entrar devagar, uma mão puxando os cabelos longos e encaracolados, negros e misteriosos; a outra mão na coxa, suada e lisa, por onde sua mão deslizava facilmente.

Amoral. Estocou com força e ela gemeu, mordeu os lábios, passou as mãos pelo próprio busto, preso sob o espartilho, instigante e atrevido. Outra vez, ela gritou junto dum gemido dele, excitando-o mais.

Ela era uma farsa. E todos seus atos eram coreografados.

Aquele cheiro deles se misturando com o cheiro do pecado que cometiam, o aroma que ele não suportava mais, que o enojava e fascinava, que enfeitiçava, mas que, aos poucos, o matava. Ele não agüentava mais, não conseguia lutar contra.

Aquele aroma de farsa que ele aprendera a repudiar, que não o encantava mais, mas que ainda surtia efeito.

O veneno do tango.

4. Pero nuestros besos aun me queman.

O fervor dos lábios de ambos, consumindo um no outro o pecado do desejo, da necessidade de sentir na língua do próximo o próprio veneno, corrompendo seus sangues puros com o proibido.

Ele afundou dentro dela, fazendo-a rir, deliciada, as respirações descompassadas e eufóricas por mais. As gostas dela golpeando a parede, fazendo barulho, doendo. Ele trouxe as pernas dela para ao seu redor, tendo mais poder de seus atos.

O cabelo dela entre os dedos dele, puxando até a dor fazê-la exclamar e tentar empurrá-lo. Mas ele não pára, ele intercala a dor dela entre as pernas com a do couro cabeludo, divertindo-se com a fúria que nasce naqueles olhos negros, e o beijo que ela lhe rouba, que arde e queima na boca dele, com desespero e raiva. O melhor beijo que já provara.

Os lábios dela o abandonam, e a mulher move o quadril para a frente e para trás, ajudando-o, segurando-se no pescoço dele, vendo-o fechar os olhos e aumentar o ritmo e a força dos seus movimentos. Os lábios entreabertos numa expressão de gozo próximo e desejo sendo saciado.

Esse era o poder que ela tinha sobre o moreno, o de deliciá-lo com tão pouco esforço e o enlouquecer com apenas um beijo. O homem tremeu e soltou as pernas dela com uma expressão satisfeita.

A satisfação egoísta do tango.

5. Besos que matan.

Beijaram-se com ainda mais desejo e ódio, os dentes machucando os lábios e as línguas guerreando para não serem envenenadas. Ele sabia que um dia enlouqueceria com aqueles beijos. Ela o soltou, e o rosto dele ardeu com um firme tapa, parte da coreografia.

Aqueles beijos queimavam. Eram beijos de tango, beijos que matam.

5 comentarios:

Paolla R. dijo...

wow. tanto tempo que não lia uma s/b tua, taitai. e, como sempre, tá linda. linda e intensa, como pede o casal :) adorei adorei adorei.

to morrendo de saudades, beijo.

Bingenheim City dijo...

Uau...........
cada vez mais forte e intensa.... e agora sem aquele meio que exagero sexual que sentia no comeco.....nao sei se fomos nós que mudamos....mas acho que sao os textos amadurecendo........adorei.....

Fleur dijo...
Este comentario ha sido eliminado por el autor.
Jéssica dijo...

achei teu blog por acaso, e gostei do que escreve. tú és boa!

enfim... só queria dizer isso.^^

Gustavo dijo...

que coisa LINDA esse texto.

uma das melhores coisas que li nos últimos tempos, lindo mesmo.
sensual, sexual.
bonito.


botei um tango pra tocar enquanto lia, sabia que era obrigatório.
:)