1. Tus dolores yo ya no los creo.
Os sapatos socando o assoalho de madeira, cronometrados com a música, com o violino, com a voz melodiosa, com o ritmo lânguido e, ao mesmo tempo, desesperado.
O suor nascendo de cada poro, brilhando na pele alva, escorrendo pela nuca, enquanto os pés traçavam passos inflexíveis, mudando a freqüência, esquivando-se.
As expressões dramáticas que só ela sabia encarnar tão bem, a solidão que banhava seu olhar, o sofrimento que franzia o seu cenho e a rodopiava sobre os saltos negros, a dor que a fazia abraçar o próprio corpo e trançar as pernas.
Toda aquela dor que ela encenava com tamanha perfeição sequer existia.
Era apenas a dor do tango.
2. Tus miedos ya no me dan pena.
As rendas negras do espartilho se aderiam à pele suada e acentuavam as curvas dos seios, delineavam a cintura, ameaçavam a razão de qualquer ser humano e ludibriavam a visão.
A saia já estava erguida até as coxas, numa vã tentativa de afastar o calor que fervia em seu corpo e queimava como o inferno. Teve que abrir os vidros das janelas e esperar que aquela tarde ensolarada soprasse algum vento.
Eles dançavam juntos separados. Aquela estranha sensação de estar sozinho mesmo que acompanhado de alguém. O violino deslizava, as cordas se preparando para o ponto culminante, os passos melancólicos, as pernas dela traçando com rapidez alguns golpes certeiros entre as dele.
Um rodopio e os dedos se soltando, como mandava a coreografia, e o medo estampado nos olhos negros dela, turvos, as mãos agarrando os cabelos, olhando ao redor, olhando sem vê-lo.
O pavor inundando os passos dela, os rodopios desesperados, a necessidade dos braços dele, o choro começando a brotar dos olhos, a fobia inexata daqueles que a fingem... Então o reencontro. O corpo sendo apalpado pelas mãos dele, o roças de lábios, a busca do olhar...
Tango é interpretar um medo que você não tem.
3. Tu olor ya no me encanta.
Os fios negros jorrando ao girar, golpeando o rosto mal barbeado. Aquele cheiro de shampoo de jasmim se misturando ao suor, ao perfume amadeirado que ele usava, ao vento quente da janela, ao pó da sala, afundando-os num aroma tão deles que mais ninguém poderia distinguir ou apreciar.
O agridoce do pescoço dela ardendo na língua dele, enquanto os passos paravam aos poucos e seus lábios se encontravam; as línguas dançando e os dedos se afundando na calcinha.
Uma espécie de ódio em conjunto com o suor, desespero e tango; e ele apenas de calça e sapato, as tatuagens no peito e os cabelos úmidos, grudando na pele, no rosto, no corpo dela.
As costas dela bateram na parede, o corpo dele, suado da dança, roçou no espartilho, sua mão afastou a calcinha, a saia erguida de maneira provocante...
As leis do tango...
Sensual. Ele encaixou as pernas entre as dela, e a fez senti-lo, rígido e quente, muito próximo de onde queria chegar.
Sexual. Deixou-se entrar devagar, uma mão puxando os cabelos longos e encaracolados, negros e misteriosos; a outra mão na coxa, suada e lisa, por onde sua mão deslizava facilmente.
Amoral. Estocou com força e ela gemeu, mordeu os lábios, passou as mãos pelo próprio busto, preso sob o espartilho, instigante e atrevido. Outra vez, ela gritou junto dum gemido dele, excitando-o mais.
Ela era uma farsa. E todos seus atos eram coreografados.
Aquele cheiro deles se misturando com o cheiro do pecado que cometiam, o aroma que ele não suportava mais, que o enojava e fascinava, que enfeitiçava, mas que, aos poucos, o matava. Ele não agüentava mais, não conseguia lutar contra.
Aquele aroma de farsa que ele aprendera a repudiar, que não o encantava mais, mas que ainda surtia efeito.
O veneno do tango.
4. Pero nuestros besos aun me queman.
O fervor dos lábios de ambos, consumindo um no outro o pecado do desejo, da necessidade de sentir na língua do próximo o próprio veneno, corrompendo seus sangues puros com o proibido.
Ele afundou dentro dela, fazendo-a rir, deliciada, as respirações descompassadas e eufóricas por mais. As gostas dela golpeando a parede, fazendo barulho, doendo. Ele trouxe as pernas dela para ao seu redor, tendo mais poder de seus atos.
O cabelo dela entre os dedos dele, puxando até a dor fazê-la exclamar e tentar empurrá-lo. Mas ele não pára, ele intercala a dor dela entre as pernas com a do couro cabeludo, divertindo-se com a fúria que nasce naqueles olhos negros, e o beijo que ela lhe rouba, que arde e queima na boca dele, com desespero e raiva. O melhor beijo que já provara.
Os lábios dela o abandonam, e a mulher move o quadril para a frente e para trás, ajudando-o, segurando-se no pescoço dele, vendo-o fechar os olhos e aumentar o ritmo e a força dos seus movimentos. Os lábios entreabertos numa expressão de gozo próximo e desejo sendo saciado.
Esse era o poder que ela tinha sobre o moreno, o de deliciá-lo com tão pouco esforço e o enlouquecer com apenas um beijo. O homem tremeu e soltou as pernas dela com uma expressão satisfeita.
A satisfação egoísta do tango.
5. Besos que matan.
Beijaram-se com ainda mais desejo e ódio, os dentes machucando os lábios e as línguas guerreando para não serem envenenadas. Ele sabia que um dia enlouqueceria com aqueles beijos. Ela o soltou, e o rosto dele ardeu com um firme tapa, parte da coreografia.
Aqueles beijos queimavam. Eram beijos de tango, beijos que matam.
domingo, 7 de septiembre de 2008
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5 comentarios:
wow. tanto tempo que não lia uma s/b tua, taitai. e, como sempre, tá linda. linda e intensa, como pede o casal :) adorei adorei adorei.
to morrendo de saudades, beijo.
Uau...........
cada vez mais forte e intensa.... e agora sem aquele meio que exagero sexual que sentia no comeco.....nao sei se fomos nós que mudamos....mas acho que sao os textos amadurecendo........adorei.....
achei teu blog por acaso, e gostei do que escreve. tú és boa!
enfim... só queria dizer isso.^^
que coisa LINDA esse texto.
uma das melhores coisas que li nos últimos tempos, lindo mesmo.
sensual, sexual.
bonito.
botei um tango pra tocar enquanto lia, sabia que era obrigatório.
:)
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