sábado, 17 de abril de 2010

Eu, por mim mesma

“Que ainda era muito e muito pouco.”

- Daniel na cova dos leões- Legião Urbana -


Eu nunca fui racional. Modesta. Permanente. Eu conhecia a metáfora Metamorfose-Ambulante de cor e salteado, de trás para frente e de frente para trás. Eu queria ser tudo aquilo que eu achava que não era.

Eu tentei me classificar.

Mas, buscando com todo afinco possível no mundo, eu não encontrei nenhum rótulo nas Páginas Amarelas que fosse “a minha cara” – e eu a li duas vezes.

Tentei ser emo, punk, rock, clássica, bitch, funkeira. Não consegui. Na verdade eu sou eclética, eu posso ouvir e dançar um pouco de tudo. Acho que sou uma mistureba.

Beijei meninos e meninas, eu quis ser lésbica e adotar uma filha, então iríamos para a praia e nossas conversas sempre seriam de mulher-para-mulher. Mas não consegui.

A gente não é o que gostaria de ser, a gente é o que é.

Eu me embebedei em tantas festas e carnavais que eu não saberia dizer quantas foram. Eu fui fumante – e as vezes ainda sou –, acho sexy, o que posso fazer?

Eu quis ter muitas vidas, inventar cada uma delas, nos seus mínimos detalhes, cada uma das cenas, dos personagens, dos nomes e as frases. Eu criava – e sigo criando – diálogos no banho, às vezes em inglês, outras em espanhol ou português. Ultimamente até arrisco algumas palavras do japonês.

Eu sempre quis ser famosa, eu queria ser atriz, queria dançar e cantar num palco, agradecer aos fãs, ser escritora e dar autógrafos, ganhar o Oscar para fazer crítica social ao vivo nas televisões de quase todos os países.

Queria ser revolucionária, mas há muitas vezes em que penso que já sou, que meus atos e meus ideais vão contra de tanta coisa que me tacham de utópica.

Mas eu gosto dessa palavra “utópica”, se voltamos atrás e vemos sua concepção inicial por Thomas More, encontramos que do grego podia significar “em nenhum lugar” ou “em bom lugar”. O que significa que, ou pertenço a lugar nenhum, não posso encontrar um rótulo específico, ou pertenço a um bom lugar.

Acho que o único rótulo que eu gosto é esse: A Utópica. Por mais duro que seja, soa melhor que qualquer outro rótulo banal que encontramos pelas geléias da vida...

Mas, voltando, eu queria viver todas as vidas possíveis, eu deveria ter sido atriz, mas pra variar tomei o caminho errado e me meti em Direito, sim eu – a utópica, louca e descabelada – vivendo entre os burocratas de direita. Pois, como podem ver, não deu.

Não pude, eu sinto muito, papai e mamãe, mas a sua filhota aqui nasceu pra voar como passarinho do mato e não se enjaular num montão de leis estúpidas e, nem sempre, factíveis.

Eu nasci pra criar. Ah, isso eu tenho certeza, eu sempre fui boa inventando, tão boa que brincava com os esmaltes da minha mãe, e dizia que era uma “familiazinha”. Eu passava horas a fio brincando sozinha, eu gostava de brincar sozinha porque assim as Barbies não tinham que falar em voz alta e eu podia inventar o que quisesse na minha cabeça.

Sim, essa era e sou eu. Eu invento minha vida quase 24h do dia, um pouco outsider e introspectiva – você pode estar pensando – mas quando me vir falando em japonês como se estivesse em Tokio, bancando a ídolo, vocês vão rir e entender que assim eu sou mais feliz.

Porque eu sempre gostei de coisas impossíveis, eu sempre gostei daquilo que eu nunca poderia ter e, por mais impossível que fosse, eu o almejaria até que cansasse desse e inventasse outra coisa ainda mais impossível.

Porque eu sou brasileira e não desisto nunca. Porque, por muito que eu deseje as coisas e que seja muito, eu sempre acharei que ainda é muito pouco.