jueves, 15 de abril de 2010

Pra curar heroísmo

Então houve um baque, um desses surdos, sem ninguém esperar. Depois veio a dor, aquela dor que te amoleces todo o corpo, mas que com o tempo te acostumas a ela e a vida volta a ser a mesma. Logo te das conta de que o coração tem sofrido últimamente, mas te tens negado a assumir, a cuidar dele como se é devido. Que as dores de cabeça não são passageiras, senão crônicas, e ris de tudo isso.

Pura barbaridade! Nada disso é verdade, tu nasceste pra ser um indivíduo feliz e completo, mas o maldito buraco no peito não tem feito mais que arder e molestar, como se te metessem o dedo na ferida dia após dia. Vão arrombando o dito cujo, seguindo seu próprio rítimo; e tu no sossego: fingindo não sentir, agüentando a maldição como uma boa mulher tem que fazer.

Engolindo a dor e os incômodos, fazendo cara de boa moça, mentindo pra ti mesma. E, de repente, tu começaste a escorregar, as costas contra a parede, o cigarro pendurado nos dedos da mão esquerda, enquanto a mão direita tocava o chão te ajudando a sentar.

Bonita maldição aquela: de querer ser mais forte do que tu pode ser. Mais madura e consciençuda do que previu. Mais feliz e verdadeira do que pode agüentar. Mais amável e compreensível do que é possível.

Vamos, guriazinha, abre os olhos pro mundo e toca com a ponta da língua a amarga verdade, a de que tu não é nenhuma heroína ou suicída pra seguir assim: rasgando o coração pra depois costurar. Usa teu par de olhos que podem chorar tranqüilamente, e deixa lágrima por lágrima escorrer e manchar e te cansar, até a dor de cabeça te fazer cair no sono.

Tu precisa entender, menina, que gente da tua idade ri e se diverte, mas chora e diz que sofre quando precisa se sentir humano.

Daí a dor te derrubou e tu ficou ali parada no chão da cozinha, até que ele te viu e te ajudou a ir jogar água na cara e tomar água com açúdar. Te fez passar pelo papel de garotinha frágil que precisava. Agora basta: não reclame mais, apanha essas forças que ele te jogou encima e volta a atuar como a valente e sempre feliz criatura que tu planejou ser.

Mas nunca te esqueças de ser humana vez ou outra, que faz bem pra gente. E ajuda a diminuir a dor.