jueves, 3 de junio de 2010

La Chilenita

Eles ficaram se olhando durante um longo tempo, antes que pudesse pensar em alguma outra citação de um poema ou livro bom. Logo ele se iria e ela continuaria ali, com seus estudos sobre literatura e teatro, com seus pés metidos nos chinelos havaianas já gastos, nos vestidos hipilões misturados com colares de pérolas falsas compradas no camelô da Santo Amaro.

Eles ficaram se olhando enquanto ele tomava a cerveja, que já deveria de estar quente depois de tanto recitar Borges, Neruda e Bocage – porque eles preferiam os versos firmes e eróticos parar rir –, e ela acendia o cigarro.

Deu um suspiro e mordeu dentro da bochecha querendo perguntar logo de uma vez:

“Por que Paris?” Ela disse enfim, assim como havia perguntado tantas outras vezes aquela mesma frase.

“Por que sim”

E ela bufou, soltando a fumaça pelo nariz e a boca ao mesmo tempo. Desde sempre ele queria morar em Paris e sem nunca uma boa explicação.

“Só pode ter sido que leu e gostou demais de Vargas Llosa!” ela reclamou.

“Li e gostei, mas a vontade foi bem anterior...” murmurou, acendendo um cigarro ele mesmo.

Ela riu. Ele sempre estava indo e vindo, mandando cartas como se fossem de um tempo longínquo, sem internet ou skype ou telefone. E ele sempre lhe mandava as cartas longas endereçadas com zelo a sua casa, em envelopes normais brancos com selos de Paris.

“Então só pode ser pelas mulheres, a vida boêmia, as artistas por todos os lados pululando nas pensões mequetrefe onde você se aloja.”

“Mequetrefe também não, Flor!” ele riu “Precisa ir comigo! Conhecer Paris e tudo o que há de bom naquela cidade!”

“Ai, Nando, sai pra lá com essa sua Cidade Luz porque ela já me roubou anos de melhor amigo...”

“E ficou com ciúmes de uma cidade?”

Ela deu de ombros, fumando o último ou penúltimo trago, ajeitando o vestido longo e hippie nas pernas, verde claro e azul, contrastando com os cabelos negros e longos.

E depois ele zombou dela, reclamando que Flor tinha pegado o sotaque engraçado daquele namorado chileno dela. O que lhe fez reclamar e espernear que ele estava lendo Vargas Llosa demais!

“Ta sim, com sotaque de chilenita”

“Nando, você não é o Ricardo e não estamos vivendo ‘Las travesuras de la niña mala’!” exclamou, puxando os cabelos pra frente e fazendo uma trança “Você foi em busca de aventuras, não é? Não foi atrás de ser cineasta e ganhar a vida assim?”

“Sim, chilenita” zombou de novo, fazendo a outra emburrar.

“Pois se eu fosse sua chilenita, era você quem devia correr atrás de mim e não ir-te pra Paris. E ficar aí morrendo de amores pela minha carne.”

“E quem disse que não morro, Flor?” e ele riu da expressão estressada dela “Morro desde que conheci essas canelas bem torneadinhas, mas não me deu nenhuma chance, aliás arranjou um namorado atrás do outro e entre eles muitos amigos meus.”

“E agora vai querer que eu acredite nesse despautério, Nandinho!” reclamou roubando a cerveja dele, porque a dela tinha acabado. E ele levantou pra buscar outra garrafa na geladeira.

“E o chileno?”

“Foi embora pra Santiago, dizendo tchau e bença. Pegou as imagens que queria de São Paulo, da Avenida Paulista para o curta, juntou os trapinhos dele e largou fora de casa. Ficou só o silêncio...”

“O silêncio e o fogueirão aceso entre as pernas, assume.” Ela revirou os olhos “Diz a verdade Flor, morreu de raiva que perdeu o chileninho e ficou com a cama fria.”

“Oras, obvio, ninguém escreve com a cama fria, como acha que andam minhas produções literárias? Um poema doído atrás do outro. A falta da pele dele, do hálito no meu cangote, das mãos quentes durante a noite, e já viu. Certamente os continhos andam sendo os mais deprimentes da minha vida”

“Então vem comigo pra Paris que eu esquento a sua cama.”

“Isso! Enche ela com seus amigos, que minha escrita agradece!”

Eles riram e ele a viu levantar e andar até o sofá cama aberto ali na sala/cozinha do pequeno apartamento que ele ainda tinha em Sampa pra quando voltava à terrinha. E ela esparramou o corpo ali, meio mole de cerveja, meio cansada, o cigarro pendurado nos dedinhos miúdos amorenados do sol e da praia.

“Ah, Florzinha, se tu não fosse tão cabeça dura eu te comia” ele disse rindo, andando até ela, seus joelhos se esbarrando “Que nem a chilenita do Pichiruchi, recitando o mais forte de Neruda no seu ouvido, enquanto eu entrava devagarzinho”.

“Vai te iludindo, vai!” ela disse rindo “Que você enlouqueceu pelo Vargas Llosa e ta achando que eu vou ser tan estrechita cuanto su chilenita.”

Ele riu e decidiu parar, a brincadeira estava indo longe demais, com seus joelhos se tocando e o corpo dela espalhado pelo colchão, dando aquela sensação curiosa de sexo ainda por fazer. Sentiu vontade de derramar os demônios naquele corpinho magro que conhecia desde o colégio, mas nunca havia tido possibilidade de tocar...

“E se brincarmos de Travesuras de la niña mala?”

Ela riu, levantando os olhos pra ele, as cinzas do cigarro caindo no chão.

“Brincar?”

“Fingimos que eu sou el niño bueno e você la niña mala. Eu faço o que a chilenita ordinária gostava tanto que o pichiruchi mequetrefe do Ricardo lhe fizesse e logo veremos se você não me deixa esquentar sua cama...”

Ela o encarou. Os olhos arregalando e então riu.

“Vou precisar de mais cerveja pra te deixar afundar a cabeça entre as minhas pernas, Nando!” Exclamou, a risada aumentando por culpa das cervejas já tomadas.

Ele também riu, meio que desistindo da empreitada. Ela ainda o via apenas como melhor amigo e parecia que não ia mudar tão cedo. Encheu os copos e devolveu o dela em mãos, enquanto ela sentava no sofá cama mais uma vez.

Ela ainda ria da brincadeira e ele se sentia extremamente incômodo, sem entender direito tudo aquilo, havia se colocado no meio do fogo queimado, saíra sem bala, mas com a sensação de ter perdido o coração.

“Ei, Flor, vai comigo pra Paris. Há várias companhias de teatro que aceitam estrangeiros, a gente consegue um visto de estudante pra terminar Literatura.”

“Nando, cada um vive seu sonho. Quando eu achar que devo ir atrás de você eu vou, afinal como uma boa niña mala eu só terei você, sempre você, meu melhor amigo, que me socorre nas horas de desespero.” Ela sorriu, fazendo ele sentar do lado dela.

Ele sentiu o coração batucar firme no peito e o cheiro dela invadiu suas narinas.

“Vai, me beija logo Fernandinho, que me dá não sei o que ver você com essa carinha de cachorrinho sem dono*”

E então ele beijou. Porque por mais eu ela não fosse a chilenita do livro que ele tanto gostava, ele amava Flor há muito tempo e mais do que podia suportar.


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O título significa A Chileninha, em espanhol. e o livro mil vezes citado é (em português) As Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, meu mestre amado.

1 comentarios:

Andressa dijo...

Llosa, Tai?
Não conhecia esse livro dele, mas sacanagem, literatura e versos trocados diretamente das bocas é instigante.
Primeiro comentário de muitos.. olha a responsa!