Hay tanta luz tan sombría en el espacio
y tantas dimensiones de súbito amarillas,
porque no cae el viento
ni respiran las hojas.
(El reloj caído en el mar – Pablo Neruda)
I
Sinto no peito pedaços mortos do meu coração, o som quebrado do meu pranto e minha voz muda de quem já se foi. Sinto os dedos das minhas mãos, tão finos e frios que parecem quase podres, os tenho mortos em vida.
Há palavras doloridas que escorregam dos meus lábios, e verdades sombrias em meus pensamentos que prefiro nunca pronunciar. Meu coração já não é vermelho, nem pulsa; meu músculo involuntário agora é raiz de todas as trevas, e ferve frio, queimando por dentro.
Sou estilhaços de vidro espalhados pelo chão, confundidos com a grama seca, misturada com a terra negra e as gotas de orvalho. A grama amarelada lembra o fim do outono e meus pés, brancos como lírios, lhe pisoteiam num sem fim de passos descontínuos; minha pele vai se rasgando contra os pedaços pontiagudos que eu mesma despejei.
Foi-se, para o nunca e para o nada, agarrando-se as recordações e razões. Foi-se, deixando-me sozinha com minhas próprias lágrimas sujas e mãos trêmulas. Capturou tudo o que me sobrava de luz e desapareceu, como a água faz entre os dedos, escorrendo gota a gota, como meu pobre e poeirento coração.
O dia dá passos de sangue quente em direção à noite e meus olhos querem seguir chorando mesmo que fechados, sentindo o cheiro maduro da morte e da terra; as orquídeas deixadas no chão, ao lado da lápide, enquanto sigo escutando vozes desconexas chamarem meu nome entre soluços de dor.
Foi-se.
II
Estive intermináveis horas observando o decorrer da vida. A maneira que desliza vida e morte numa mesma estrada sem fim, vezes se esbarrando, vezes tropeçando, vezes cumprimentando-se sem dizer adeus, vezes indo embora sem notar-se uma à outra.
Quando se desaparece assim, como se virasse pó ou sumisse na imensidão do universo, quando me dei conta disso, vagamente, minhas lágrimas eram de sal e sangue e tinham o poder da destruição.
E mesmo que cada uma delas caísse apenas no meu próprio rosto, manchando apenas a minha pele, eu sentia como se a maldição destrutiva que cada uma delas emanava fosse capaz de afetar todas as pessoas que me rodeavam.
Foi-se. Voando para o nada, tocando o infinito com seu corpo magro e desolado, sua voz me vinha aos ouvidos, rouca e podre como a morte, atormentando meus pensamentos doentios. Martelando suas canções de despedida em meus tímpanos.
Meu pranto descontínuo, meus medos incontroláveis, minhas fantasias em vão. Tudo perdia e entremesclava com as meras visões baças que meus olhos podiam me dar, arrancando-me a alma como a morte costuma fazer, rompendo veias e ligamentos de uma relação defunta.
Foi-se, mas deveria haver-me levado junto.
III
As manhãs nasciam com esforço, lançando jorros de luz ao céu até ganhar sua luta contra as trevas. E cansei de vislumbrar batalha trás batalha, como se houvesse salvação para a escuridão.
Como se a mesma luz não me parecesse sombria e solitária, trazendo recordações já em estado de decomposição, ardidas e latentes, rastejantes na minha mente.
Por que encaixotar corpos se, ao fim, todos virarão pó? O que deixamos nesse mundo se nossa alma se vai, se nossos ossos de desfazem e somos aprisionados em malditas caixas de madeira cara com forros acolchoados e macios que guardarão nossas cinzas mal-cheirosas e antiquadas, nossas unhas esfareladas e cabelos descoloridos.
Pedaços amaldiçoados de vidas que jamais voltarão, de vidas que pouco marcaram o mundo ou representaram alguma salvação. Partes incógnitas da criação e destruição dessas almas pecadoras, rebanhadas em petróleo negro e areia cinzenta, cheirando a mofo e flores mortas, pulmões cheios de água suja.
A morte, desgarradora de peitos com seus dedos de maldade e unhas que comem carne humana. Rachaduras escuras e gretas mal cheirosas. Cheirando à perda, desilusão e remorso.
Foi-se. E que me levasse também, em uma de suas nuvens cinzentas de enxofre e chumbo ardente que queima almas solitárias. E que morresse por fim sem deixar mais vestígios que um suspiro roto, sem lágrimas de despedida ou choro de tristeza.
Que morresse, para não ter que ver outra vida ser levada na minha frente.
lunes, 5 de julio de 2010
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2 comentarios:
Que coisa mais melancólica, Tai!
É um fato que ninguém é merda nenhuma aqui e que no fim todo mundo tem o mesmo destino - por isso eu EXIJO ser cremada - , mas enquanto a morte não vêm, CARPE DIEM!
Ficou lindo, viu?
;*
brigada, sami, vou tentar escrever continhos mais vezes hehe
se cuida e carpe diem pra vc tbm!
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